Avô,
Faz hoje um mês que partiste. Não me via a fazer outra coisa a estas horas, senão escrever-te. Desde que partiste, deixaste em mim um vazio muito grande. Maior do que esperava. É verdade. É verdade que nunca fomos muito próximos. É verdade que não foste o avô mais presente. E também é verdade que eu provavelmente, não fui a melhor neta. Mas sabes o que é que também é verdade? O facto de eu sentir a tua falta. Porque sinto. E sei que haverá muita gente a perguntar-(m)se "Então e por que razão não tentaste aproximar-te do teu avô enquanto ainda era tempo? Porque é que só agora lhe mostras todo esse carinho?". Ou talvez seja só eu.
Mas sinceramente, não sei. Talvez tivesse medo da tua reacção. Sempre foste um homem severo, e eu tinha receio que menosprezasses o meu carinho por ti.
Há pouco tempo, a avó confidenciou-me que nunca te ias deitar sem antes passar, ao de leve e com ternura, a mão no meu retrato que tinhas na tua mesa de cabeceira.
Algumas lágrimas fugiram dos meus olhos quando ela me disse isso. Foram cair na fotografia nossa que tinha nas mãos. Oh... tu eras meu avô. E eu era tua neta.
Como pude ser capaz de duvidar que receberias de braços abertos um gesto do meu apreço? Tenho tantos arrependimentos guardados no meu coração. Tantos. Estão guardados bem lá no alto, para que eu nunca lhes chegue e nunca os consiga afugentar daqui. E eu queria poder recomeçar tudo de novo. Queria poder ver-te outra vez e saldar esta dívida que tenho para com o teu coração, avô.
Queria poder abraçar-te, só mais uma vez.
Tivesse eu percebido mais cedo, o quão importante realmente eras (és) para mim, teria feito muita coisa diferente. Muita mesmo. E não me importa o "efeito borboleta", porque eu alterava todo o meu presente e aniquilava todo o meu futuro, se pudesse ser a neta que queria. Por um dia que fosse.
Tu ainda vives, avô. No meu coração. E naquela fotografia que eu tenho agora pendurada na parede do meu quarto. Tu ainda vives, naquela tinta e naquele papel com a nossa imagem gravada.
E tu viverás sempre.
Porque eu sou tua neta.
E tu és meu avô.