Entrou na sala mal iluminada. Os seus olhos pousaram automaticamente na mesa, velha e empoeirada onde receava encontrar mais uma carta. Os seus medos tinham razão de ser.
Dirigiu-se, de passo leve e incerto, até à mesa, e, com cuidado, com as mãos que tremiam levemente, abriu o papel dobrado em quatro. Leu as palavras nele contidas.
"Será ela capaz de fazer tudo o que eu fazia?
Será ela capaz de te entender, como eu sempre fiz? Será ela aquilo que queres?
E aquilo que vias em mim? Vês também nela? Espero que não, porque se assim for, apenas arranjaste uma cópia reles da minha pessoa, e isso eu não admito. Tiveste o original nas tuas mãos, porque foste à procura de quem fosse capaz de preencher aquilo que eu já preenchia?
Digo que ela é uma cópia da minha pessoa, mas não deveria. Não deveria ousar comparar-me a tal ser.
Não me chames de convencida, porque ambos sabemos que é a verdade. Ambos sabemos que poderíamos ter tido tudo, mas que tu preferiste ficar com a fotocópia a preto e branco."
No seu quarto, claro e luminoso, acabara de escrever a carta. Deixá-la-ia em cima da mesa já velha e poeirenta que comprara com ele, quando ainda viviam na felicidade.
Após a ter lido e relido, suprimiu uma lágrima, e ao invés, soltou um sorriso.
A outra não era a cópia de ninguém. E ambas sabiam disso. Beijou a folha. Os seus lábios vermelhos e carnudos deixaram uma marca de batom. Ele leria a carta. E nesse preciso momento, saberia que fizera a escolha certa.


