pour toujours

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5.4.12

Drink Up Sweet Decadence ♥


Atravessara a estrada a medo. Não estava completamente certa daquilo que planeava fazer. Refugiar-se no escuro talvez ajudasse. Deixar as luzes para trás.
Continuou a andar, acelerando o passo. Embrenhou-se ainda mais nas ruas desconhecias, cujas esquinas a baralhavam. Tudo estava silencioso, por isso, o estranho o som de uma respiração pesada alertou-lhe os sentidos. Sentia-se desconfortável, como se algo não estivesse bem. Talvez não estivesse mesmo. Ou talvez fosse apenas o medo a falar mais alto. 
Lentamente, olhou para trás. Pareceu-lhe adivinhar uma sombra, mas era de certeza apenas um pequeno candeeiro pendurado numa varanda. "Mas não há vento...". 
O ar estava pesado, e ela sentia dificuldade em respirar. Era-lhe difícil manter-se consciente. Sentiu-se a cair, e a última coisa que viu foi o candeeiro apagar-se.
Ele vira-a cair. Vira o medo nos olhos dela quando se voltara para trás e perscrutara o vazio. O vazio onde ele se encontrava. O vazio por onde a seguira, imitando-lhe os passos, desvendando-lhe as rotinas. Quando a vira cair, soubera que estava tudo acabado. Ela morrera, e ele continuaria no vazio, no escuro, como que esperando pela sua alma.

6.3.12

Because The Night Belongs To Lovers ♥


Olhava para a televisão sem interesse. Conseguia ouvir os vizinhos de cima a discutir. Novamente. Sabia que acabaria por voltar tudo ao normal. Dentro de minutos, estariam na cama, a satisfazer o desejo animal e primitivo que os seus corpos lhes impunham, enquanto soltavam gritos que todo o prédio conseguiria ouvir. A cama bateria contra a parede e as molas do colchão rangeriam com tal violência que se tornaria quase impossível não partirem. Quem passasse na rua por essas horas, julgaria que um homicídio estivesse a ocorrer. Depois de consumado o acto, ouvi-los-ia respirar, de cansaço e prazer. Os corpos suados, com as marcas da luxúria imediata, as roupas espalhadas pelo chão. Ela levantar-se-ia e ligaria a água do duche. Tomaria banho, enquanto ele, tentaria segui-la até lá e "importuná-la" até que ela cedesse e o deixasse juntar-se a ela. Aí, possuir-se-iam mais uma vez, debaixo da água, por vezes gelada, por vezes escaldante, do duche.
Ela conhecia bem a rotina. Afinal, fora ele que lha ensinara. E agora, olhava sem interesse para a televisão. 

3.3.12

'Cause Your Presence Still Lingers Here ♥


Ouvia o silêncio que pairava à sua volta. A sala estava fria. As mãos, mesmo dentro das luvas, estavam geladas. Tinha conseguido cravar um cigarro ao velho da esquina, mas não tinha lume. Pegou no cigarro e observou-o, com olhos de ver. Retirou as luvas e sentiu bem nos seus dedos a textura suave, mas ao mesmo tempo rugosa. Inspirou o seu aroma. "Porra, era capaz de matar agora por lume". Partiu o cigarro ao meio, e atirou-o para o outro canto da sala.
Tinha o cabelo preso no alto da cabeça. Soltou-o. Sentiu um alívio imediato. Mais ainda queria o cigarro que sabia já não poder levar aos lábios. Teria de permanecer com o sabor doce e ao mesmo tempo, tão amargo, da boca dele. Qualquer coisa seria melhor do que aquela constante recordação dele, mais forte a cada segundo que passava. 
Directamente à sua frente, tinha um espelho de corpo inteiro. Viu o seu corpo, naturalmente esguio, quase esquelético. "Podia perder uns quilos". 
Decidiu que não iria nunca mais ceder à tentação de provar os lábios dele. Toda a amargura que ele lhe deixara na boca e no coração, depois das palavras vãs, era bem superior ao sentimento momentâneo que o movimento dos seus lábios junto dos dele despertava. Ordenou a si mesma que parasse de pensar em tal coisa, e aí, viu o isqueiro que estivera sempre ao seu lado. No outro lado da sala, estava, partido ao meio, o cigarro que nunca chegaria a fumar. 

18.1.12

Because I Heard It Screaming Out Your Name ♥


Escrevo-te de novo hoje, mais uma carta fantasma, a ninguém entregue.
É só para dizer que te amo. Ou amava. Sou ingénua, inocente e inexperiente. 
Mas escrevo, sem endereço, apenas endereçado. Tu.
Quantas palavras que pensei foram tuas e para ti! Eram como um som, que sempre tinha estado adormecido, mas que tu acordaste, com a tua voz doce, sussurrada ao meu ouvido. 
Mas depois, esse som cessou. Tu emudeceste. Eu ouvia apenas o teu silêncio. Costumava incomodar-me, custar-me a vida. Depois passou. Depois, mesmo que tivesses um "amo-te" preparado, eu não quereria ouvir tais palavras ditas pela tua boca. E ainda não quero. Mas o silêncio continua a custar-me, porque a melodia que eu repetia todas as noites na minha cabeça, era a tua voz. Não, ainda não me esqueci da sua sonoridade maravilhosa, da forma como pronuncias cada letra, como entoas cada sílaba, como terminas cada frase. Mas canso-me de repetir sempre as mesmas coisas. Não me dás nada de novo para que possa recordar.
Mas não faz mal. Talvez seja melhor assim. Para mim e para ti. Para nós. Ah, esqueci-me que esses morreram.


12.1.12

No, I Can't Take One More Step Towards You ♥



O telemóvel toca. Olho para o relógio. 4h:30 da manhã. "Mas quem será, a esta hora?". Atendo, e ouço uma voz familiar. "O que é queres?" Pergunto, antes de te dar oportunidade de dizer um "Olá" que fosse. "Quero falar contigo. Posso?". Pondero a minha resposta. Se te disser um "não" e te desligar o telemóvel, continuarás a ligar-me até ouvires uma resposta afirmativa. Se te der a oportunidade de dizeres o que queres, estarei a humilhar-me, a rebaixar-me, e a dar parte fraca. Tu notas a minha demora e perguntas "Estás a pensar?". Ris-te. Tens o descaramento de te rires por eu me sentir insegura em relação às tuas palavras. "Não, não podes falar comigo, mas deixa-me dizer-te isto: quando desligares a chamada, e perceberes que nunca mais vais ouvir o som da minha voz, não chores, sorri, porque depois de todas as asneiras que fizeste comigo, ainda conseguiste fazer algo bom; tornaste-me alguém mais forte e ponderada. Sê feliz, e aprende a fazê-lo sem mim". 

Gostava imenso de ter conseguido dizer-te isto, mas fui cobarde e tomei o caminho mais fácil. Desliguei-te a chamada, e em seguida, o telemóvel. Isso garante-me que, mesmo que queiras, não me voltas a incomodar, pelo menos, por hoje.
Não, não me acordaste. Tenho passado as noites em claro. Mas não é por tua culpa. "Não queiras mais de mim do que aquilo que já tens", digo em voz alta. Tenho o hábito de fazer isto, quando estou sozinha. Falo para o ar, como se me pudesses ouvir. Mas eu sei que não podes. Não me importo com isso. É melhor assim, porque eu quero afogar a (grande) parte do meu ser que ainda espera voltar para os teus braços. 
E podes dizer tudo o que quiseres. Eu nunca te dei razão, não é agora que vou começar.