pour toujours

16.2.15

Lighting Me Up Like Venus



Cansei-me de esperar por ti. Fartei-me de chorar quando sei que já não chove mais nos teus olhos. Tenho pena de não termos conseguido ser aquilo que prometemos nas madrugadas em que me seguraste, nos suspiros por entre os beijos que trocámos às seis da tarde. Quase. Quase que fomos algo bonito. Quase que te amei para sempre. Pensei tantas vezes que te deixei fugir quando já nem sequer estavas no mesmo sítio que eu. Passaste todas as fronteiras que tinhas para passar. Fugiste-me sem eu dar conta. Continuava a segurar-te nos meus braços, as minhas mãos ainda sentiam a tua pele e os meus lábios ainda continham o teu sabor. O batom protegia aquele pequeno vestígio dos teus lábios que permanecia comigo, mesmo depois de ter sentido outras bocas, de me ter deixado noutras pessoas. Corri uma maratona à tua procura, senti o ar a queimar nos pulmões depois de chorar durante horas e horas, dias seguidos. Dias que se tornaram em meses e meses que passaram a anos. O ar continuava a queimar-me por dentro enquanto eu me imaginava a percorrer todos os caminhos de ti que nunca me mostraste. Fugi de tudo para me refugiar em ti. Quis-te, precisei-te. Eras um país por explorar, um misto de curiosidade e conhecimento que eu sabia que não podia perder. Uma oportunidade única. Um num milhão. Deixaste-me com nada. Sem mim, só com um vazio que queimava. Como o ar que respirei enquanto corria, enquanto te amava sozinha em noites de lua prata. Com nada. Contudo, aprendi a ter-me. A amar sem me apaixonar por ti, a ter sem te possuir. Erros estúpidos, gritos mudos, diálogos sem resposta. Monólogos. Pressa. Tenho pressa de chegar a ti para poder fugir de ti. Desapareceste-me como uma artéria. Deixaste as tuas marcas, mas não me mataste. É a força do hábito, escrever-te quando não sei escrever. Afogo-te em metáforas, espero compreender os paradoxos em que me enfiei e odeio as antíteses que me fizeram amar-te. Pretérito. Passado imperfeito. Perfeito. Nunca fui só tua, sempre fui minha. Sou dos que me têm, não dos que me tiveram. Já não me sobra nada teu, nem rancor. Eu, a que sempre te amou e que nunca deixou que chamassem ao ódio que te senti antítese mas somente comparação. És-me apenas um pretexto de escrita. Tão triste quando é na verdade a melhor coisa do mundo. Nunca morrerás nas palavras de alguém. Enquanto existirem caracteres prontos a formular o teu nome, vives. Vives na tinta das palavras que datilografam, vives no sangue que corre nas veias de quem te escreve e descreve. Vives até quando o coração do autor morrer. A vida para além da morte resume-se a isto e por isso, és eterno. Não em mim, mas nas minhas palavras, que têm tanta força como aquela que lhe quiseres dar. És uma despedida agridoce. A carta que já te escrevi mais de mil vezes, a carta que nunca te irei ler ou entregar. A missiva mais triste e mais bonita que alguma vez espero ter-te escrito. És um texto de madrugada, sempre foste. Acabas como me começaste. Nada daquilo que possa inventar alguma vez cobrirá aquilo que sempre te quis dizer e não disse. Como as curvas da tua voz dançavam no meu ouvido ou como os teus olhos postos em mim me faziam tremer. Como o teu toque me acendia e como o teu sorriso me iluminava. A diferença. 
A carta de despedida em aberto. Fechei-a com um selo de um sorriso angustiante. Porque saíste dos trilhos. Porque andaste sem rumo, rumo a outra igual a mim. Outra vida. Para além da morte das minhas palavras por ti. Para ti. O que lhe quiseres chamar. Não chames mais nada. Não te chamo. Chamo-me. Em chamas.

2 comentários:

Sofia Alves Cardoso disse...

Todo o teu texto é pura melodia, triste mas linda. Irão sempre haver pessoas, como a que falas, que nos levarão a escrever sobre elas. E fizeste-o de uma forma estonteante. Parabéns!
Beijinhooo

Sunshine disse...

Perfeito! Tudo o que sinto neste momento e que conseguiste pôr em palavras... Incrível, obrigada por esta leitura.