Uma garrafa de gold strike e três maços de tabaco. Cinco minutos de reflexão antes de sair para o ar frio da noite. Sem cerimónia, abres a garrafa e bebes até o sangue te queimar. Esperas que o álcool te apague o passado e preferes continuar a beber com a mão esquerda, sempre com um cigarro aceso na direita. Pensas se sentares-te no telhado será a melhor opção ou se hoje, o chão é a tua casa. Preferes nem pensar. Estás no teu estado mais puro, mais honesto. Apetece-te provar os mesmos lábios que desde sempre te tentam e, num golpe de sorte, o sabor da canela é substituído pelo da boca dele. O misticismo não se quebra. O vento empurra o perfume dele contra ti. Precisas dele. Precisas de escapar à mediocridade de uma vida de gold strike e marlboro. Observas os olhos dele, mas não vês nada. Sentes um aperto no estômago e calas o nervosismo com mais um golo de vodka. Não há nada que te pare agora.
Quatro minutos e uma espera demorada. Já não há vento nem frio. Há apenas a escuridão de uma noite mais do que vivida. Saboreias os últimos momentos de loucura que a madrugada ainda permite. Não tarda, tens de deixar os cigarros no telhado e a vodka no chão. Pensas em átomos e numa noite escaldante, no frio do relento. Pensas em ódio e no sexo. A culpa não é tua, é da alucinação que a lua te causa. Estás alienada. Alheias-te de tudo menos do corpo dele. É demente o torpor que o toque de um fio de cabelo te pode causar. Há uma parede entre o teu dia e a vossa noite. Há uma barreira entre as pessoas que são ao sol, e as pessoas que a lua descobre. De dia, vivem. De noite, apaixonam-se. De madrugada, sentem-se.

