Tanto escreveu que ficou com os dedos em sangue. A dor pungente no lado direito da cabeça turvava-lhe a vista. Era o peso do próprio ar que a fazia perder o fôlego. Tinha os membros entorpecidos, um ardor na garganta e os olhos repletos de lágrimas. Era só mais um factor para lhe impedir a clareza da visão. Queria desesperadamente sair. Percorrer as ruas escuras, desertas e húmidas sem rumo certo. Queria acender um cigarro enquanto os tacões dos sapatos batiam contra o asfalto. Tinha saudades das noites que passara acompanhada. Tinha saudades do calor corporal que lhe aquecia a alma. Sentia falta dos beijos sôfregos, do toque dos corpos e dos aromas. A mão esquerda pendia quase sem vida, agora que já não tinha qualquer tipo de suporte onde se sustentar. A mão que outrora a segurara partira já há muito, mas, numa triste lealdade quase poética, ela nunca se habituara a essa ausência fatal. Era um tudo nada que lhe faltava no coração. Era um tudo nada que tinha um nome. Um tudo nada que ela queria esquecer e não conseguia, por mais tentativas anímicas que fizesse. Era uma morte rápida que a consumia lentamente. Como um golpe que só se torna fatal se nos deixarmos esvair em sangue. E ela estava a ficar já enxague. Estava a tornar-se fria, hirta e vidrada. Vidrada no quê? Na sombra dele que nunca mais se adivinhara pelos mesmo caminhos que ela. Estava fixa numa qualquer linha do horizonte que só tornava o seu sofrimento mais crasso e o seu coração mais inerte. Ela, no fundo, o ser mais cristalino, já não se encontrava presente. Apenas a saudade. Porque é como sempre disse, a saudade mata.
9.11.13
4.11.13
Why Did You Leave Me All Alone? ♥
Numa realidade paralela, talvez as palavras que vou cuspindo signifiquem realmente alguma coisa. Por agora, aqui, são só o reflexo daquilo que não quero dizer. Não posso deixar que os meus lábios profiram certos vocábulos. Não antes de os metamorfosearem de tal modo que a verdade já não possa mais vir ao de cima. Vou deixando pequenos apontamentos da minha existência pelos locais por onde passo. Se estiver escuro, ninguém os vê. Se calhar, seria melhor assim: que a minha existência pudesse ser ignorada por todos aqueles que pisam o mesmo chão que eu. Sinto-me a respirar um ar cada vez mais rarefeito, que mais e mais me magoa o peito e me faz arder os pulmões. Pulmões de ópera que não operam os seus próprios movimentos. É tudo involuntário, e por isso mesmo, cinjo-me ao mínimo dos mínimos. Fecho as mãos com força tentando fazer o tempo parar, mas ele não para. Nada para. Não consigo mudar. Sinto qualquer tipo de ilusão de controlo que ainda pudesse ter esvair-se por cada um dos meus poros. Há fumo, mas não há distração. Há verde, mas o fogo de artifício não vem. Sinto-me sôfrega e mortiça ao mesmo tempo. Como se fosse possível sentir-me mais do que viva e a morrer ao mesmo tempo. Começo a escrever e não paro. Vou inventando frases que não fazem o mínimo sentido. A ideia principal vai-se diluindo a cada palavra que acrescento aos meus devaneios. Preciso disto tanto quanto preciso de oxigénio. Preciso de oxigénio?
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