Vou começar a fingir que já não sinto a tua falta de novo. Porque entre mostrar a todos que não sou de ferro e iludir-me, ainda que por breves momentos, prefiro ter uma falsa felicidade. Destrói-me saber que sentes a minha falta e não fazes nada para alterar isso. Como se eu não fosse importante o suficiente para admitires que preferes estar comigo do que sozinho, com ela, ou com outra qualquer. Não era suposto que as coisas fossem assim. Que o teu orgulho alienado destronasse o amor. E eu? Por mais que tente ser orgulhosa, quando falamos de ti, sou uma página em branco. Sou algo que não existe.
Para meu próprio bem, devia recorrer à racionalidade e ao pragmatismo da coisa e aceitar que o teu coração não me pertence nem voltará a pertencer. E eu sei que há quem olhe para mim como se eu fosse louca. Como se a parte sã da minha alma se tivesse apartado. Talvez. Rodeio-me de preto, de fumo e do travo amargo dos cigarros que cravo à Gabriela. Ela, cuja existência eu abominava, acabou por se tornar num apoio estável e presente, quando tu deixaste de o ser. Quando foste e eu fiquei. Se voltares, eu não sei se ficarei. Só que eu sei que sim. Sei que rastejar não faz parte de quem era, mas faz parte de quem hoje sou.

