Vejo as fotografias dos corpos despidos, através das lentes cor de laranja dos meus óculos. Questiono-me sobre o que lhes aconteceu. Se morreram antes do seu coração parar de bater. Se a mulher da fotografia à minha esquerda perdeu o amor da sua vida, e se matou. À direita, um homem que viu o pai morrer, num acidente de viação. E a morte. E o cerne da questão. Ouço uma multidão aclamar pelo meu nome, e vou à janela. Não, não é para mim. "Puta." "Vadia". Não, não posso ser eu. Fecho a janela com força e choro. Acendo um cigarro e deito-me na cama. Só vejo o vazio. Da cama. Da casa. Do corpo. Do coração.
Procuro pelo lado quente da cama que me alberga e não está lá. Há muito que os lençóis esfriaram. Há muito que ele se foi. Onde é que ele está, meu Deus? O meu desespero acumula-se em pequenas gotículas de suor que me escorrem pela face, misturando-se com o agridoce das minhas lágrimas. Eu perdi-o. Eu perdi-o. Corro para a rua, sem me importar com os pés descalços e com o roupão meio aberto. Olho para todos os lados. Vejo toda a gente, mas não vejo ninguém. Um homem alto choca contra mim. Olho para a sua cara e o mundo congela. É o mesmo homem da fotografia. "O seu pai morreu", digo-lhe. O homem pára, em espanto, e eu começo a correr. O roupão caiu, os pés sangram, mas não me importo. Corro meio mundo e acabo em lado nenhum. Onde é que ele está? Grito, até a minha garganta ceder ao desgaste e ao desespero. Caio. O meus joelhos também sangram agora. Vejo, mas nem sinto. Não te sinto. Onde foste? Porque partiste? Não tenho energia para mais nada. O texto? Vai ficar assim. O amor? Também.
