Não estava habituada a ser feliz. Na realidade, apenas fora completamente feliz uma vez. Uma vez na sua vida, por uns míseros 21 dias. E no final, até onde é que isso a levara? A um estado de apatia ainda maior. A uma dormência tal, que passara a ver o mundo a preto branco, a ouvir os sons através de um filtro. Passara a viver como se estivesse vendada. Talvez estivesse mesmo. Talvez a amargura tivesse coberto de tal forma os seus olhos e o seu coração que o céu passara a ser o seu chão. E ela não gostava de alturas. Não. Passara a odiá-las desde que caíra desamparada, no 21º dia.
Ela não estava habituada a ser feliz, por isso, quando um sorriso verdadeiramente sentido lhe esculpia os lábios, ela estranhava o sentimento. Estranhava o sentimento assim como estranhava não ter a mão dele para agarrar. Não ter o seu corpo do lado do dela. E ao fim de 119 dias passados, desde o 21º, ainda não se habituara a tal privação. Não precisava de um coração novo, precisava de uma vida nova. O "problema" é que precisava de ser com ele.

