Olhava para a televisão sem interesse. Conseguia ouvir os vizinhos de cima a discutir. Novamente. Sabia que acabaria por voltar tudo ao normal. Dentro de minutos, estariam na cama, a satisfazer o desejo animal e primitivo que os seus corpos lhes impunham, enquanto soltavam gritos que todo o prédio conseguiria ouvir. A cama bateria contra a parede e as molas do colchão rangeriam com tal violência que se tornaria quase impossível não partirem. Quem passasse na rua por essas horas, julgaria que um homicídio estivesse a ocorrer. Depois de consumado o acto, ouvi-los-ia respirar, de cansaço e prazer. Os corpos suados, com as marcas da luxúria imediata, as roupas espalhadas pelo chão. Ela levantar-se-ia e ligaria a água do duche. Tomaria banho, enquanto ele, tentaria segui-la até lá e "importuná-la" até que ela cedesse e o deixasse juntar-se a ela. Aí, possuir-se-iam mais uma vez, debaixo da água, por vezes gelada, por vezes escaldante, do duche.
Ela conhecia bem a rotina. Afinal, fora ele que lha ensinara. E agora, olhava sem interesse para a televisão.

