pour toujours

2.2.12

Who Will Fall Far Behind? ♥


Ela já não sabia o que fazer. Revirava-se na cama há horas. Parecia que todas as mágoas lhe tinham afluído à mente num só momento. Não aguentava mais. 
Levantou-se. Olhou para o relógio que ele lhe tinha oferecido no dia dos namorados. Marcava 5 horas e 7 minutos. Foi para a cozinha e preparou uma chávena de chá. Pôs-lhe 4 colheres de açúcar. Não suportava chá amargo. Enquanto bebia o chá de cidreira, o seu favorito, enrolada numa manta, olhava pela janela. Apenas um pensamento habitava a sua mente exausta: por que é que ainda tinha aquele relógio na mesa de cabeceira? Por que é que ainda não o tinha deitado fora, assim como ele tinha deitado fora o seu coração? A resposta era simples. Ainda o amava. Esperava que ele voltasse com o seu coração. Mas ela não o queria admitir. Dia após dia, tentava convencer-se que aquele relógio estava lá apenas porque ela gostava dele. Porque o seu engenho a acalmava. Mas na verdade, era porque no som dos seus ponteiros, podia jurar que ouvia o bater do coração dele. Podia jurar que o amor dele não tinha morrido, simplesmente estava confinado naquele relógio, e ele (ainda) não o sabia.
Deu por si a pensar no que ele estaria a fazer naquele preciso momento. A dormir? Ou talvez estivesse a fazer tudo menos dormir. Talvez estivesse com ela. Talvez lhe estivesse a prometer tudo aquilo que um dia lhe prometera a ela. Por um momento, desejou poder avisá-la que tudo o que ele lhe sussurrava eram palavras vãs, juras de amor traiçoeiras, e que ele iria acabar por destruir o seu coração. Mas talvez não fossem. Talvez ele amasse mesmo a outra. Talvez ele acabasse por ficar com ela, e por uma vez, cumprir a tal promessa do "para sempre".
Quando acabou o chá, eram quase 5h30. Mas deixou-se estar a observar aquilo que via da janela.
Os primeiros raios de sol iluminaram a cozinha. Iluminaram também os seus olhos, vermelhos do cansaço, e as olheiras profundas que os rodeavam. 
Levantou-se e foi até ao quarto. Olhou  de relance para o relógio. 5h53. Quase 6 da manhã. Tinha de conseguir dormir. De repente, sentiu algo diferente. Sentia a casa mais vazia, mais abandonada. Conseguia ouvir a própria respiração. Conseguia ouvir as lágrimas que lhe escorriam agora pela face abaixo. Deitou-se na cama, e assim que os seus cabelos tocaram o tecido claro e macio da almofada, adormeceu. Um sono profundo. Sem sonhos, sem choros. Simplesmente dormiu.
Quando acordou, olhou para o relógio. Ainda marcava as 5h53.  

1.2.12

Can I Make It Better? ♥


Avô,
Faz hoje um mês que partiste. Não me via a fazer outra coisa a estas horas, senão escrever-te. Desde que partiste, deixaste em mim um vazio muito grande. Maior do que esperava. É verdade. É verdade que nunca fomos muito próximos. É verdade que não foste o avô mais presente. E também é verdade que eu provavelmente, não fui a melhor neta. Mas sabes o que é que também é verdade? O facto de eu sentir a tua falta. Porque sinto. E sei que haverá muita gente a perguntar-(m)se "Então e por que razão não tentaste aproximar-te do teu avô enquanto ainda era tempo? Porque é que só agora lhe mostras todo esse carinho?". Ou talvez seja só eu.
Mas sinceramente, não sei. Talvez tivesse medo da tua reacção. Sempre foste um homem severo, e eu tinha receio que menosprezasses o meu carinho por ti. 
Há pouco tempo, a avó confidenciou-me que nunca te ias deitar sem antes passar, ao de leve e com ternura, a mão no meu retrato que tinhas na tua mesa de cabeceira.
Algumas lágrimas fugiram dos meus olhos quando ela me disse isso. Foram cair na fotografia nossa que tinha nas mãos. Oh... tu eras meu avô. E eu era tua neta.
Como pude ser capaz de duvidar que receberias de braços abertos um gesto do meu apreço? Tenho tantos arrependimentos guardados no meu coração. Tantos. Estão guardados bem lá no alto, para que eu nunca lhes chegue e nunca os consiga afugentar daqui. E eu queria poder recomeçar tudo de novo. Queria poder ver-te outra vez e saldar esta dívida que tenho para com o teu coração, avô.
Queria poder abraçar-te, só mais uma vez.
Tivesse eu percebido mais cedo, o quão importante realmente eras (és) para mim, teria feito muita coisa diferente. Muita mesmo. E não me importa o "efeito borboleta", porque eu alterava todo o meu presente e aniquilava todo o meu futuro, se pudesse ser a neta que queria. Por um dia que fosse.
Tu ainda vives, avô. No meu coração. E naquela fotografia que eu tenho agora pendurada na parede do meu quarto. Tu ainda vives, naquela tinta e naquele papel com a nossa imagem gravada.
E tu viverás sempre.
Porque eu sou tua neta.
E tu és meu avô.