Ela já não sabia o que fazer. Revirava-se na cama há horas. Parecia que todas as mágoas lhe tinham afluído à mente num só momento. Não aguentava mais.
Levantou-se. Olhou para o relógio que ele lhe tinha oferecido no dia dos namorados. Marcava 5 horas e 7 minutos. Foi para a cozinha e preparou uma chávena de chá. Pôs-lhe 4 colheres de açúcar. Não suportava chá amargo. Enquanto bebia o chá de cidreira, o seu favorito, enrolada numa manta, olhava pela janela. Apenas um pensamento habitava a sua mente exausta: por que é que ainda tinha aquele relógio na mesa de cabeceira? Por que é que ainda não o tinha deitado fora, assim como ele tinha deitado fora o seu coração? A resposta era simples. Ainda o amava. Esperava que ele voltasse com o seu coração. Mas ela não o queria admitir. Dia após dia, tentava convencer-se que aquele relógio estava lá apenas porque ela gostava dele. Porque o seu engenho a acalmava. Mas na verdade, era porque no som dos seus ponteiros, podia jurar que ouvia o bater do coração dele. Podia jurar que o amor dele não tinha morrido, simplesmente estava confinado naquele relógio, e ele (ainda) não o sabia.
Deu por si a pensar no que ele estaria a fazer naquele preciso momento. A dormir? Ou talvez estivesse a fazer tudo menos dormir. Talvez estivesse com ela. Talvez lhe estivesse a prometer tudo aquilo que um dia lhe prometera a ela. Por um momento, desejou poder avisá-la que tudo o que ele lhe sussurrava eram palavras vãs, juras de amor traiçoeiras, e que ele iria acabar por destruir o seu coração. Mas talvez não fossem. Talvez ele amasse mesmo a outra. Talvez ele acabasse por ficar com ela, e por uma vez, cumprir a tal promessa do "para sempre".
Quando acabou o chá, eram quase 5h30. Mas deixou-se estar a observar aquilo que via da janela.
Os primeiros raios de sol iluminaram a cozinha. Iluminaram também os seus olhos, vermelhos do cansaço, e as olheiras profundas que os rodeavam.
Levantou-se e foi até ao quarto. Olhou de relance para o relógio. 5h53. Quase 6 da manhã. Tinha de conseguir dormir. De repente, sentiu algo diferente. Sentia a casa mais vazia, mais abandonada. Conseguia ouvir a própria respiração. Conseguia ouvir as lágrimas que lhe escorriam agora pela face abaixo. Deitou-se na cama, e assim que os seus cabelos tocaram o tecido claro e macio da almofada, adormeceu. Um sono profundo. Sem sonhos, sem choros. Simplesmente dormiu.
Quando acordou, olhou para o relógio. Ainda marcava as 5h53.
