O barulho das botas no asfalto fê-la acordar dos seus devaneios. Sentia-se gelada. Entrou num dos poucos cafés que ainda estavam abertos àquela hora. O café estava vazio, à excepção de um homem sentado ao balcão a beber um copo de uísque. Sentou-se numa mesa e pediu um café. Não conseguia tirar os olhos do homem do balcão. Algo na sua postura a atraía. Quando lhe foram dar o café, ele levantou-se. Ia a sair, quando os seus olhos se encontraram. Eram de um azul profundo. Embora soubesse que era falta de educação, não conseguia desviar o olhar do dele. Apenas naquela fracção de segundo, consegui ver-lhe a alma. Conseguiu ver-lhe todo o sofrimento, todas as mágoas. E pareceu-lhe ver também um ar convidativo. Como se ele lhe estivesse a pedir conforto. "Estás louca!", pensou, quando ele saiu para a rua.
Levou a chávena aos lábios cuidadosamente pintados de vermelho. O café, forte e sem açúcar, como sempre, queimou-lhe a garganta. Bebeu-o lentamente, como se esperasse descobrir um novo sabor, por entre todos aqueles que já conhecia.
Quando acabou o café, deixou-se estar ali sentada, a observar as paredes. Directamente à sua frente, estava pendurado um quadro de uma paisagem. Ao lado, um relógio grande e dourado, marcava 01:05 da manhã.
Alguém lhe tocou no braço. "Menina, tem de sair. Vamos fechar". Levantou-se, pagou o café e saiu.
Assim que pôs um pé fora da porta, levantou o olhar e vi-o. O homem do balcão. Ela parou. Ele avançou. Olhou-a nos olhos. Ela viu novamente aquele ar convidativo. Aspirou o seu perfume. Era maravilhoso. Deixou-se inebriar por ele. Ele agarra-a, sorri, e beija-a.
Ela nunca tinha sido beijada assim. Com tanta loucura, tanto desejo. Puro desejo. Explorou a boca dele e descobriu novos sabores, novas tentações. Ele largou-a finalmente, e disse "Vem comigo. Anda comigo. Não preciso de saber o teu nome. Não precisas de saber o meu. Vem só". Ela via o quão imprudente aceitar a proposta dele poderia ser, mas, que se dane! Só por uma noite, queria ser livre de fazer o que lhe apetecesse, e céus!, como lhe apetecia fugir com ele para o fim do mundo. Ela acena que sim com a cabeça, e vão juntos, de mãos dadas para um destino indefinido. Essa indefinição acaba por levá-los até a um quarto de hotel.
Nesse quarto, ela descobriu cada milímetro dele. Deixou que as suas mãos fortes a protegessem. Deixou que ele a amasse. E deu-lhe tudo de si. Assim como ele lhe deu tudo aquilo de que era feito. Ela viu-se reflectida nos olhos dele, e em todos os momentos que partilharam, deixou com ele uma parte si, para que ele nunca a esquecesse. Para que, numa madrugada fria, ele se sentasse no balcão de um café, com um copo de uísque na mão e pensasse nela, a desejasse de novo. E para que percebesse que ao agarrá-la, ao tocá-la, ao amá-la e ao senti-la daquela maneira, lhe tinha devolvido toda a liberdade, e por isso mesmo, nunca mais a iria ter.

