pour toujours

31.1.12

No One Can Find The Rewind Button ♥



O barulho das botas no asfalto fê-la acordar dos seus devaneios. Sentia-se gelada. Entrou num dos poucos cafés que ainda estavam abertos àquela hora. O café estava vazio, à excepção de um homem sentado ao balcão a beber um copo de uísque. Sentou-se numa mesa e pediu um café. Não conseguia tirar os olhos do homem do balcão. Algo na sua postura a atraía. Quando lhe foram dar o café, ele levantou-se. Ia a sair, quando os seus olhos se encontraram. Eram de um azul profundo. Embora soubesse que era falta de educação, não conseguia desviar o olhar do dele. Apenas naquela fracção de segundo, consegui ver-lhe a alma. Conseguiu ver-lhe todo o sofrimento, todas as mágoas. E pareceu-lhe ver também um ar convidativo. Como se ele lhe estivesse a pedir conforto. "Estás louca!", pensou, quando ele saiu para a rua. 
Levou a chávena aos lábios cuidadosamente pintados de vermelho. O café, forte e sem açúcar, como sempre, queimou-lhe a garganta. Bebeu-o lentamente, como se esperasse descobrir um novo sabor, por entre todos aqueles que já conhecia. 
Quando acabou o café, deixou-se estar ali sentada, a observar as paredes. Directamente à sua frente, estava pendurado um quadro de uma paisagem. Ao lado, um relógio grande e dourado, marcava 01:05 da manhã. 
Alguém lhe tocou no braço. "Menina, tem de sair. Vamos fechar". Levantou-se, pagou o café e saiu. 
Assim que pôs um pé fora da porta, levantou o olhar e vi-o. O homem do balcão. Ela parou. Ele avançou. Olhou-a nos olhos. Ela viu novamente aquele ar convidativo. Aspirou o seu perfume. Era maravilhoso. Deixou-se inebriar por ele. Ele agarra-a, sorri, e beija-a.
Ela nunca tinha sido beijada assim. Com tanta loucura, tanto desejo. Puro desejo. Explorou a boca dele e descobriu novos sabores, novas tentações. Ele largou-a finalmente, e disse "Vem comigo. Anda comigo. Não preciso de saber o teu nome. Não precisas de saber o meu. Vem só". Ela via o quão imprudente aceitar a proposta dele poderia ser, mas, que se dane! Só por uma noite, queria ser livre de fazer o que lhe apetecesse, e céus!, como lhe apetecia fugir com ele para o fim do mundo. Ela acena que sim com a cabeça, e vão juntos, de mãos dadas para um destino indefinido. Essa indefinição acaba por levá-los até a um quarto de hotel. 
Nesse quarto, ela descobriu cada milímetro dele. Deixou que as suas mãos fortes a protegessem. Deixou que ele a amasse. E deu-lhe tudo de si. Assim como ele lhe deu tudo aquilo de que era feito. Ela viu-se reflectida nos olhos dele, e em todos os momentos que partilharam, deixou com ele uma parte si, para que ele nunca a esquecesse. Para que, numa madrugada fria, ele se sentasse no balcão de um café, com um copo de uísque na mão e pensasse nela, a desejasse de novo. E para que percebesse que ao agarrá-la, ao tocá-la, ao amá-la e ao senti-la daquela maneira, lhe tinha devolvido toda a liberdade, e por isso mesmo, nunca mais a iria ter. 

30.1.12

But I Haven't Seen Barbados ♥


Percebe uma coisa: eu não te ando a evitar por seres quem és. Eu ando a evitar-te por ser quem sou. E hoje... oh, hoje foi um dia mau. Os meus pensamentos acumulavam-se em montes inúteis. 
Tenho o coração ainda rasurado; a sanidade presa por um fio e todas as memórias possivelmente felizes  arquivadas num livro que agora deve estar desfeito em pó. Quando vejo o meu reflexo no espelho, já não reconheço os olhos que aí observo. Estes são mortiços. Não têm vida. Perderam todo o brilho que alguma vez tiveram. E não sei se a culpa será tua. Pode ser minha. Pode ser do tempo que perco a tentar tirar-te do meu pensamento. Pode ser dessas horas que perco sem qualquer resultado. 
A minha mente voa pelos mais diversos recantos, mas acaba sempre por parar em ti. Acaba sempre por ir ter ao sítio que eu mais quero evitar. É cansativo. Eu estou cansada. Eras como uma luz que me guiava, mas agora tornaste-te na luz que me encandeia a visão, de tal modo, que eu não consigo ver o caminho à minha frente. A cada passo que dou, arrisco-me a cair do abismo que sei que se aproxima. Mas recuso-me a ficar parada. Não sei se por medo de me encontrares aqui, à espera que te vás embora; se por curiosidade de saber o que encontrarei no fundo desse abismo. Talvez seja um misto dos dois. Assim como tu foste um misto de amor e de desilusão para mim.