Tenho as mãos geladas. Doem-me os pés. "Não devia ter comprado esta porcaria de botas", penso. Mesmo assim, continuo a andar. Tenho o meu destino definido na cabeça há semanas: a ponte. Está frio, e no céu escuro, conseguem distinguir-se levemente nuvens carregadas, que anunciam mais uma chuvada. "Ultimamente tem chovido muito", digo para mim mesma. Vou tentando afastar outros pensamentos da minha cabeça com este monólogo de circunstância.
Estou quase a chegar ao meu destino predefinido; apenas me falta atravessar uma rua e lá estarei. Paro no passeio, à espera que o semáforo fique verde para os peões. O tempo parece demorar muito a passar. De repente, uma gota de água cai em cima do meu casaco. E depois outra. E outra. E começa a chover. "Tal como eu tinha pensado". O sinal fica, finalmente, verde. Mesmo assim, olho para um lado e outro antes de atravessar. A chuva tolda-me a visão, mas sei bem o caminho que quero seguir para chegar onde quero estar.
Avisto finalmente a ponte. E o rio, em todo o seu esplendor. Sento-me num dos bancos que lá estão. A madeira está encharcada, mas não me importo. Olho em volta. Não se vê ninguém por perto, mas continuo a ouvir vozes e gargalhadas, como um barulho de fundo persistente. "PÁRA!", grito na minha cabeça. E as vozes cessam. Tudo está num perfeito silêncio. Então, o meu telemóvel toca. Não me apetece atender, mas mesmo assim, olho para o visor. Conheço este número bem demais. "Não vou mesmo atender", mas antes de poder carregar no botão vermelho, os meus dedos pressionam o verde. Encosto automaticamente o telemóvel ao ouvido e do lado de lá, oiço a tua voz. "Amor?". Fico tentada a ignorar-te, mas da minha boca, sai um "O que é que queres?" "É só para te pedir desculpa. Eu amo-te. E estou arrependido. Fui tão idiota. Consegues perdoar-me?". Ao ouvir estas palavras, uma lágrima quente e salgada teima em escorrer pela minha cara, mas consigo contê-la. "Não. Adeus". E desligo o telemóvel imediatamente. Guardo-o novamente no bolso das calças e esboço um sorriso. "Eu sabia que ele se ia arrepender".
Ainda não parou de chover. Olho para o relógio. 22h57.
Levanto-me e aproximo-me do muro da ponte. Sento-me na pedra gelada e cruzo os braços. "O rio é lindo".
Com cuidado, subo para o muro. Deixo-me estar ali uns minutos, em pé, com a chuva a bater-me no corpo.
Olho novamente para o relógio. 23h23.
Salto.
"Porra, não devia ter comprado a merda das botas".

